quarta-feira, 18 de maio de 2011

Algumas saudades

Supostamente presente no rol dos sentimentos de qualquer ser humano, por instinto. Contudo, enquanto em outros países não há denominação para esse sentimento, aos brasileiros é dada a honra de haver um signo para significá-la: saudade. E por que não dizer “saudades”? Eu mesma já alternei minhas formas de simbolizar meu entendimento de saudade, e por isso considerar o plural. Talvez existam mais tipos de saudade dos quais eu possa imaginar; talvez eu não devesse tentar classificá-los; talvez seja algo tão intrínseco e pessoal, que sugira um mote de “talvez” mesmo.

Sendo assim, demasiadas explicações posteriores serão recorrentes a mim, realmente. Todavia, se mais alguém perceber sentir saudades como eu, quem sabe não as cultivamos por algo também comum?

Quem não já sentiu saudade da infância, de brinquedos e brincadeiras, de um lugar não mais visitado ou modificado, de um cheiro por vezes recordado? Essa é a saudade do passado, e as tentativas de revivê-lo não se cumprem, uma vez que estaremos a cada tempo em outro contexto. Saudade de coisas e momentos. Podemos até confessá-la a alguém, mas além de intransponível, essa saudade é recheada de símbolos peculiares tão somente descritíveis por cada indivíduo.



Geralmente, tentar administrar os sentimentos como se faz com os negócios não é boa idéia. E sendo a saudade um sentimento por si só complexo, é difícil senti-lo, entendê-lo, discorrê-lo, ausentá-lo. Ainda mais difícil é tocar na saudade do outro. Entender que existem pessoas as quais complementam o significado daquelas coisas e daqueles momentos inesquecíveis por ora individuais, por compartilhá-los em um mesmo espaço-temporal. 

Outro tipo de saudade – inevitavelmente classificando-a – é aquela por quem não está mais de corpo presente neste mundo. Saudade de quem deixou aprendizados, lembranças. Essa provoca uma dor que pede ajuda à fé para cessar, porque não será mais possível abraçar aquela pessoa novamente. Um parente, um amigo, a sensação de vazio. Dessa saudade ninguém escapa. Parafraseando Tim Maia, “não sei por que você se foi, quantas saudades eu senti...”, não saber, aqui no sentido de não admitir a saudade, porque é doloroso senti-la, e ele bem soube quando perdeu a filha. 

Tem outro tipo de ausência, diferenciada pela distância física, a qual provoca saudade. Essa pode chegar a um nível tão elevado, que dor deixa de ser metáfora e, de fato, dói no peito, sobretudo quando relacionada a términos de relacionamento. É a mais frequente em canções e costumo dizer que há sempre alguém em algum lugar do mundo a senti-la, porque há sempre alguém a sofrer por amor. Subdividi-la-ia em duas. Uma sentida pelo sujeito ido, outra, deixada por outrem ir. Outro versinho de canção para ilustrar: “Saudade, palavra triste quando se perde um grande amor...” 

Ainda há outro tipo de saudade, mais delicada e também relacionada à ausência. Uma que impulsiona as demais, enche o coração de alegria, acalma no abraço. Saudade de quem foi, mas não tarda a voltar, e antes de partir, sem querer ir, já a sente. Sem envaidecer os outros tipos de saudade, essa parece ser a mais egoísta. Faz-nos pensar que em vez de inteiros, precisamos da presença do outro para nos fazer completos. 


Cada saudade de um modo, em um tempo, sentida de variadas formas, ainda que sejam por algo em comum. Às vezes é triste, às vezes é necessária, pode-se matá-la ou guardá-la. Eu tenho, tu tens, ele tem. Afinal, de lembranças também se vive.

Mariana Lorena


Divã, 17/05/11 Rede Globo

terça-feira, 17 de maio de 2011

Mudou o sujeito, o verbo, o complemento


Artigo indefinido feminino
De inevitáveis adjetivos
Depois, o que vem antes de tudo
Primeira pessoa do singular

Verbo ir conjugado
Terceira pessoa do singular
Sem hierarquia de numeral ordinal
Pretérito perfeito: foi
Perfeição de voltar
De ligação, porque é
Percepção de que está

O complemento é predi-cativo do "meu sujeito"
Mariana Lorena

sábado, 14 de maio de 2011

Literatura enquanto fantasia

Senti a experiência de resgatar o hábito de escrever, e em menos de 24hs uma nova motivação surgiu para confirmar o prazer que tenho a minhas próprias expressões, deixando-me gotas feliz, muitas. Tive a oportunidade de acompanhar uma conferência de Bartolomeu Campos de Queirós, na qual reavivou em mim o desejo de dar continuidade aos pensamentos, inclusive porque ele acabou por decifrar demasiadas inquietações que eu guardei até então. A audição foi revigorante para me encontrar na satisfação. Seguirei elucidando as palavras dele.
“Acredito que a arte pede tudo aquilo que se faz com emoção, e não apenas com o conhecimento.” Parafraseando de maneira apenas semelhante, Bartolomeu inicia seu discurso com a afirmação de que a literatura é feita de fantasia. O homem vive em um eixo que ancora o presente ao passado, que nada mais é do que a fantasia do que podia ter sido feito, ou seja, as fantasias que foram perdidas a partir da escolha; e o futuro: também fantasia. O real não pertence à literatura; a fantasia é o real que ganha corpo nela. Antes de um objeto ser criado, uma viagem realizada, um momento concretizado, tudo isso passou pelo campo da fantasia. É por isso que a fantasia contesta o que se vive e permite a conversação entre o eixo passado-presente-futuro.

A literatura é fantasia porque quer indagar com o desconhecido. Nela, pode-se escrever a respeito de qualquer coisa feita, pensada, ou não. Assim, a fantasia é o que existe de mais profundo em nós, porque a gente não conta (a nossa) a todo mundo; tem gente que morre sem dizer qual é a sua. A literatura permite três passos: ler, inscrever-se no texto e adicionar um terceiro pensamento jamais editado, aquele recriado no ato de leitura, algo que passa pelo segredo do leitor. Usamos constantemente a metáfora, e o escritor a utiliza como mais do que uma figura lingüística, a fim de ser cauteloso com a própria fantasia, ao passo que dá liberdade ao leitor.

A memória, por sua vez, é patrimônio maior do homem, pois é nela que recorremos para conduzir nossas ações, permeando não apenas o vivido, mas permitindo a união entre fantasia e realidade. Bartolomeu relaciona: “quem não tem memória, não tem gratidão.” O tempo não passa, ele ancora, a memória pesa.

Todo texto literário é reflexivo e não fecha as portas para o leitor. A pessoa é induzida a ler pela significação que aquelas palavras adquiriram para ela, e não pelo que o autor disse, mas por levá-lo onde o leitor nunca esteve.

A escrita é mais complicada que a oralidade. Escrever parece fácil porque é possível pensar melhor nas palavras ou modificá-las posteriormente, rasurá-las, enquanto a palavra dita jamais retorna. Basta uma palavra para destruir uma relação, e tentar justificar o erro é cair em abismo. Contudo, a palavra organiza o caos, ela é cura, se é que a vida tem cura!

Bartolomeu discorre... “Por que eu escrevo? Sei lá! Se eu soubesse, talvez escrevesse livros de auto-ajuda, que dizem como o leitor deve fazer. Sou incoerente, inconseqüente. Escrevo talvez para que o outro me ajude a entender o problema que tenho, mas não consigo ver. Quando estudava física, aprendi em óptica, que existe uma distância mínima para que o olho humano consiga enxergar um objeto. É por isso que só poderei me enxergar nos olhos do outro.”

Escrever é passar a vida a limpo. Quando escrevo, tenho que pensar as várias coisas de implicação que eu sinto, além de escrever para o outro, que verá em mim tudo o que eu não consigo enxergar. Há então a necessidade de escrever não para encantar o outro, mas para que ele seja encantado. Todavia, encantar e negociar o encanto com o conhecimento tem sido difícil.

Cita Cecília Meireles: “As palavras estão muito ditas e o mundo muito pensado.” As pessoas estão encantadas com a tecnologia, com a facilidade das conclusões, e os comentários cada vez mais frequentemente giram em torno do que se viu na internet. A televisão é forte prova de alienação também. As novelas mostram um estilo de vida que o telespectador não tem. Entre um capítulo e outro seguem as propagandas e elas mostram o carro que você não tem, o xampu que você não tem, o tênis que você não tem. A pessoa passa então a pensar não no que tem, mas viver priorizando o que falta. A literatura, entretanto, supre a falta de outras coisas que fantasiamos.

Ao falar da criança leitora, Bartolomeu não demonstrou tamanha inquietação, disse não estar preocupado porque uma criança, mesmo a menor, pega o livro, lê de cabeça pra baixo, carrega para a cozinha, coloca debaixo do braço. Porém, a criança deixa de gostar do livro quando entra na escola. Se o professor diz “a casa é bonita”, a definição de casa bonita a um aluno pode ser a casa que tem comida; para outro, uma casa que tenha pai e mãe; para outro, uma casa amarela. Tendo em vista que a escola é servil, deve satisfações a alguém e caso a pergunta seja “como é a casa?”, não irá satisfazer ao professor se a resposta não for “bonita”. Talvez esse seja o grande problema da literatura. O livro didático é convergente, o literário é convergente. Contudo, nós não nos damos conta de lidar com a liberdade e o aluno fica reduzido a formular a própria resposta. O Brasil precisa de leitores mais reflexivos.

A escola deve ceder espaço para a literatura – incentivar a liberdade do outro. Quando somos leitores literários, descobrimos que o mundo é uma grande dúvida, e ter dúvida é ficar atento ao outro, é ser prudente. A vida é uma grande dúvida. A verdade não, é absoluta, autoritária.
O professor professa uma crença, na qual ele precisa acreditar. O primeiro objeto de leitura se encontra no olhar do professor sobre o texto, enquanto para cada um há um prazer em ler, o qual depende do sujeito, da emoção, das experiências. Cada um guarda tantas fantasias e viveu situações múltiplas! Uma música desperta não só a audição, mas também pode aguçar o tato com um arrepio; uma comida sugere não só o paladar, como pode resgatar uma memória. Eis o homem, enquanto propriedade inteira, somado de cinco sentidos. “O mundo é um grande livro sem texto e cabe ao homem o grande trabalho de colocar legenda nesse mundo”, diz Bartolomeu.

Um bom texto não nos deixa isentos. Falando em criador (e não repetidor), o autor precisa ter generosidade, para dar o melhor de si; humildade para aceitar que o melhor si mim não é o melhor para todos; ausência de inveja, para fazer o outro se sentir melhor. Isso acontece internamente. Quando lemos um livro e pensamos ‘era fulano quem devia ler’; quando vemos um pôr-do-sol e pensamos ‘era fulano quem devia estar aqui comigo’, provamos que sempre se tem alguém para chamar no imaginário. “A beleza chama o outro, porque é triste sozinha."

Mariana Lorena