Seguindo viagem, uma senhora dividiu a poltrona do ônibus com um desconhecido, que antes de sentar perguntou:
-Posso ir ao seu lado?
Com a expressão de riso, respondeu se acomodando no banco:
-Pode...!
O curto diálogo me fez pensar um pouco mais na sintaxe daquela pergunta. Eu e minha sensibilidade às palavras! Eu elaborava uma série de contextualizações para a mudança de apenas uma letra (a) na interrogação dele. Talvez minha resposta continuasse a mesma com tal alteração, porque eu saberia da intencionalidade do emissor naquela situação, mas o discurso seria outro, sim, se ele perguntasse "Posso ir do seu lado?" Preposições que se diferenciam por tão pouco e tanto.
Uma pessoa pode ir do lado, estar do lado, ficardo lado, seja em um veículo, ao seguir um mesmo caminho, sentado em um sofá, na cama... 'Do lado' exprime concretude, dá a ideia de corpos fisicamente mais próximos, alinhados lateralmente.
A diferença é sutil.
Ir, estar ou ficarao lado confere união. É apoio moral, é acatar o pensamento do outro. A sutileza se finda em não ser necessário que dois corpos estejam juntos. Aquele desconhecido talvez ficasse ao lado da senhora, caso precisasse que ele a defendesse, ou não; mas do lado dela, ele já estava.
'Ao lado' é cumplicidade, é poesia. E acrescentaria que somente a capacidade de sentir que o homem possui, diferentemente de coisas e animais, dá-lhe a regalia de usar tal preposição.
Ninguém ouvirá isso a meu respeito. Minha mãe confirmou. Nas minhas brincadeiras eu pegava as roupas dela, passava batom e construía minhas fantasias. Eu gostava de assumir as lideranças: a professora da escolinha, a mãe da casinha, a chefe da empresa... (risos) Pulava elástico, gostava de estar na rua, mas nunca tive dom para os jogos com bola. Brinquei muito de bonecas, tinha poucas, acho que apenas duas, mas conversava com elas, as quais depois foram trocadas por um diário. Cantora, nunca pensei em ser.
Depois de crescida, lembrei que em 1998, comecei a participar do coral da escola. Eu tinha apenas 10 anos incompletos, a mais nova do grupo, o qual ensaiava nos fins de tarde, depois das aulas. Três canções daquele tempo são bem vivas na minha memória: Felicidade, Adeste, Fideles e Eu sei que vou te amar, minha preferida na época.
Capa do Cd
Em 2002, o professor de História, mais conhecido como Chicão, ministrou uma aula na qual tocou violão para a turma. Queríamos que as aulas sempre fossem daquele jeito musical! Tanto pedíamos, que ele se dispunha a nos tocar alguns clássicos da Bossa Nova, até que os encontros se tornaram semanais. “Desde 2003 teve origem no Instituto Brasil um grupo musical - TRIBUTO À MÚSICA – coincidentemente fundado no centenário de Vinícius de Moraes [...]”, palavras dele. As primeiras canções foram Regra três, Samba da volta, Tonga da Mironga, Samba da bênção, e outra preferida: Chega de saudade. Mais tarde outras músicas foram incorporadas ao repertório.
Ainda em 2003, depois de uma reunião na igreja, fui indicada por Talita Matias a fazer parte do grupo de música católico SERVOS DA RAINHA. Thaíse Matias e Genard Melo foram os responsáveis por boa parte do meu desenvolvimento vocal.
Em 2004 Genard me incentivou a fazer um teste para ingressar no OPERART (escola de música). Passei entre 10 de cerca de 80 inscritos. As avaliações eram bimestrais e recordo as canções: Virgem, Marina Lima; Serra da Boa Esperança, Lamartine Babo; Pra você, Roberto Carlos; From this moment, Shanya Twain (Romantic). Os recitais seguiam: no TAM Maria, Mária, Mariá, Elza Soares (Samba de Gafieira) e Feira de Mangaio (Retalho Nordestino), e no TCP É disso que o velho gosta (Sertanejo). Foram ótimas apresentações e superações, com as orientações de Rildo Queirós. Não concluí o curso técnico, em virtude do pré-vestibular em 2006.
Samba da Gafieira, Retalho Nordestino, Sertanejo, Internacional
Em 2007 gravei os backings vocals, também com Genard, para o CD da BANDA CUPIDO (Priscila Freire) e fizemos alguns shows, até ela ir para Salvador. Inclusive trabalhamos juntos novamente no Reveillon em Upanema, já com novo nome, DONA MENINA.
Projeto Seis e Meia, TAM
No contratempo, recebi o convite, assim como Carlinhos Zens, para participar da gravação de um DVD de um grupo pé-de-serra composto por mulheres: AS POTYGUARAS, “[...] tem em seu repertório referências na música, resgatando o melhor do folclore e da cultura nordestina”, de acordo com inscrição no encarte. Hoje o projeto continua com o nome de As Nordestinas, em diferente formação.
No rol dos convites, também como backing vocal, em 2008 participei do Projeto Seis e Meia com ARAKEN JULIÃO, em apresentação única no TAM. O repertório contava com as canções do ícone da música potiguar, Elino Julião, pai do intérprete.
Surgiram outras gravações, umas festas, alguns casamentos. Entre elas, algumas como com Marcos Lopes (Forró da Lua), Naldinho Ribeiro e convites como Cavalo de Aço e Lane Cardoso, os quais vieram em momento de renúncia para me dedicar aos estudos. Em 2008, cantei já como solo o Reveillon no Hotel Coral Plaza e o carnaval de 2009 com a Banda Mix e Dimas em Barreta e Galinhos/RN.
Gravação do DVD, TAM
Outubro de 2009 passei a integrar o projeto GALEGUINHO DO ACORDEON (Carlos Henrique) como backing vocal e posteriormente também tocando triângulo. Foi meu vínculo a uma banda de maior período até então. Fiz amigos pessoais, além de profissionais. E em 31 de março de 2010 houve a gravação do DVD.
Carnaval de 2010 recebi a oportunidade de fazer backing, dessa vez em Salvador, novamente ao lado de Genard, - gravando também a música Lascar Cawboy, com os Galácticos -, mas especificamente com a BANDA MINA (Mariana Assis), da produtora Caco de Telha. Fizemos shows em Maceió, interior da Bahia, Pernambuco, camarote da Globo - Galo da Madrugada, em Recife. (Segue vídeo)
Meados de maio de 2010, a BANDA KUXIXOidealizada por Israel Galiza “surge com o intuito de agradar a todos os públicos e todos os tipos de bares e festas.” Alcançamos o mercado natalense e com a música autoral Fala a Verdade, ganhamos 2° lugar no Festival Universitário da Canção da UFRN em novembro. A apresentamos então nos programas destinados ao Carnatal, De Olho na Folia (Band) e Em cima do Trio (Sim TV, atual Rede TV RN), além de ter acompanhado Márcia Freire no Mais Folia (Tv Ponta Negra). Programas como 360 (Sim Tv) e Point de Verão (Tv União) também exibiram o trabalho da banda, que já em 2011 fez carnaval em Caicó, na Casa do Bob.
Visando novos projetos, em 2011 a banda ganha novo nome: MARILOH, “prometendo trazer cada vez mais qualidade musical, animação e repertório único e diferenciado”.
1ª formação da Banda MariLoh
Por vários momentos senti arrepios ao cantar, dando-me uma sensação de estar viva, de estar fazendo algo agradável, por vezes emocionante, eufórica. Cantando já tive que segurar o choro, para que ninguém percebesse, assim como ri de graça. Percebo que compartilho aquelas emoções alheias, e que sempre tem alguém mais sensível ao que canto, porque aquela música representa algo a ela. Isso é impagável.
Em 2015, a Banda Mariloh já completa 4 anos de formação, com mais experiência, shows semanais, amigos e parceiros.
E aquela menina que não sonhava em ser cantora, hoje é conhecida como tal. Tenho a consciência de que as tentativas de fugir fracassaram, por isso seguirei cantando até quando Deus permitir. Mesmo que possa ainda não ser valorizada enquanto profissão, a música hoje é não só meu trabalho, como um desafio, meu prazer.